Como encontrar CDS views no SAP S/4HANA
Quem trabalhou anos com ECC decorou um mapa mental: material é MARA, contabilidade é BSEG, classificação contábil de pedido é EKKN. No S/4HANA esse mapa não foi apagado — as tabelas continuam lá —, mas a SAP colocou por cima delas uma camada oficial de leitura: as CDS views. E é nessa camada que vivem os relatórios embedded analytics, as APIs, os apps Fiori e as extensões clean core.
O problema? Você funcional sabe o que procura ("estoque de material", "partidas do Razão"), mas não sabe onde procurar. A SE11 mostra a tabela, não a view recomendada. E perguntar pro desenvolvedor a cada spec não escala. A boa notícia: existem pelo menos quatro caminhos — dois deles nem exigem acesso a sistema — e este guia percorre todos, com o passo a passo em telas reais.
Por que procurar CDS views em vez de tabelas clássicas?
Porque a leitura recomendada de dados no S/4HANA é pela view liberada, não pela tabela física. As CDS views do Virtual Data Model (VDM) são a camada semântica oficial do S/4HANA: campos com nomes de negócio (CompanyCode em vez de BUKRS), textos e moedas já resolvidos, associações navegáveis e controle de acesso embutido. A própria SAP mantém uma KBA dedicada só a essa pergunta — "como encontrar a CDS view ou API válida".
Tem também o lado do contrato: uma view released é uma API estável — a SAP se compromete a não quebrá-la entre releases. Já a tabela é detalhe de implementação: no movimento de simplificação, campos somem, tabelas viram compatibility views e specs amarradas nelas envelhecem mal. No ABAP Cloud isso virou regra dura: só APIs liberadas podem ser usadas, e a correção documentada pela SAP para um SELECT em tabela não liberada é justamente trocá-lo pela sucessora CDS — KNA1 → I_Customer é o exemplo canônico. É por isso que várias tabelas que todo funcional conhece aparecem hoje com o estado Not To Be Released e uma sucessora indicada.
Insight: a pergunta "em qual tabela está esse dado?" virou duas: "qual view liberada entrega esse dado?" e "de quais tabelas ela lê?". A primeira serve pra spec e relatório; a segunda, pra debug e conferência. As ferramentas deste guia respondem as duas — e a ordem em que você as usa muda conforme o ponto de partida.
Como ler o nome de uma CDS view?
O VDM segue uma convenção de nomes rígida — prefixo por papel, nome semântico em camel case e sufixo por função — e decodificá-la transforma qualquer busca em busca informada. Antes de sair procurando, vale internalizar esta tabela:
Padrão | O que é | Interessa ao funcional? |
|---|---|---|
| Interface view: o bloco básico do VDM, harmonizado e reutilizável | Sim — é onde a busca começa |
| Consumption view: pronta pra consumo em apps Fiori e queries analíticas | Sim — relatórios e KPIs |
| API view: exposta como serviço OData liberado | Sim, em integrações |
| Extension include view: ponto de extensão do modelo | Raramente |
| Private view: detalhe interno da SAP, sem garantia nenhuma | Não — nunca use em spec |
Sufixo | Nova geração da view (a anterior segue existindo) | Prefira a mais recente |
Sufixos | Camada analítica (Embedded Analytics) | Sim, para relatórios |
Sufixo | Value help (ajuda de pesquisa) | Indiretamente |
Sufixo | Transactional processing (objetos RAP transacionais) | Raramente |
Falta uma peça: o estado de release. Uma view pode existir e não ser liberada. O que sustenta o "Released" são os stability contracts (SAP Help — Stability Contracts for CDS Views): o contrato C1 libera o uso interno no sistema (é o que o ABAP Cloud exige), o C2 libera o uso como API remota. Na prática: Released significa contrato estável; Not To Be Released significa "use a sucessora"; Deprecated significa "migre". Você vê esse estado em praticamente todas as ferramentas a seguir — é o primeiro campo a conferir antes de colocar um nome de view numa spec.
Regra: para consumo funcional, o alvo é quase sempre uma
I_ouC_com estado Released. Se a busca só devolveP_ou views não liberadas, o dado provavelmente é exposto por outro caminho — procure pela sucessora ou pelo assunto, como mostram as próximas seções.
Como descobrir a CDS view que substitui uma tabela clássica?
O caminho mais direto é o SAP Cloudification Repository Viewer — uma ferramenta pública, no navegador, sem login, em que você digita o nome da tabela clássica e recebe o estado dela na estratégia de cloudification e as sucessoras oficiais. Por trás dela está o repositório oficial de release da SAP no GitHub, atualizado a cada release do S/4HANA.
O passo a passo com a EKKN (classificação contábil do pedido de compra):
Acesse o viewer e digite
EKKNna busca central;Confira o campo Release: o padrão "Latest" mostra o estado da versão mais recente — troque pela release do seu ambiente, porque estado e sucessoras podem mudar de uma versão pra outra;
Em Object Type, filtre por
TABL(tabela/estrutura);Clique no resultado: o painel direito mostra o estado — Not To Be Released — e, logo abaixo, a seção Successors;
Ali está a resposta:
I_PurOrdAccountAssignmentApi01, do tipoCDS_STOB.
EKKN no Cloudification Repository Viewer: estado da tabela e sucessora CDS no painel direito
Nem toda tabela tem uma sucessora única. A MARA, por exemplo, devolve cinco: I_Product, I_ProductProcurement, I_ProductQM, I_ProductSales e I_ProductStorage_2 — uma por visão do mestre de material. Faz sentido: a "tabela gorda" do ECC foi fatiada em views por papel de negócio, e a sua spec deve citar a fatia certa.
MARA: cinco sucessoras, uma por visão do mestre de material
Na prática: anote também o Application Component que aparece no resultado (MM-PUR, LO-MD-MM...). Ele confirma se a view pertence mesmo à área do seu processo — e é o mesmo componente que você usaria num chamado pra SAP. Outro detalhe útil: a busca fica registrada na URL do viewer, então dá pra mandar o link da consulta pronto pro colega.
Como buscar CDS views por assunto de negócio?
Quando você não tem uma tabela de partida, o mesmo viewer resolve por assunto — desde que você mude o filtro. Em Object Type, escolha CDS_STOB (é assim que o viewer classifica as CDS views, mas você pode buscar por demais tipos de objetos, como BADIs, Interfaces, Classes e etc.) e busque pelo termo de negócio em inglês, que é o idioma dos nomes técnicos do VDM.
Duas técnicas cobrem quase tudo:
Curinga com
*: a busca*MATERIAL*STOCK*devolveI_MaterialStock,I_MaterialStockTimeSerieseI_MaterialStock_2— todas Released. Repare no sufixo_2: entre duas gerações, fique com a mais nova.Termo simples: buscar
SCHEDULEcom o filtroCDS_STOBlista 32 views liberadas de divisões de remessa, planos de manutenção e afins — a coluna Application Component ajuda a separar o que é do seu processo.
Curinga + filtro CDS_STOB: as três views liberadas de estoque de material
Busca por termo de negócio: 32 views com "schedule" no nome, todas com estado visível
Regra: toda busca vale para a release selecionada no filtro — e só pra ela. Uma view liberada na versão mais nova pode nem existir no seu sistema, e uma sucessora pode ter sido trocada entre releases. Antes de levar o resultado pra spec, repita a consulta com a versão do seu ambiente e confirme dentro do sistema (View Browser ou ADT).
O que o Business Accelerator Hub oferece para explorar CDS views?
O SAP Business Accelerator Hub é o catálogo oficial de conteúdo técnico da SAP — e tem uma seção inteira de CDS views: na data destas capturas, o card exibia 18.817 views. A diferença pro Cloudification Repository Viewer: aqui cada view tem uma página de detalhe com campos, associações e anotações. É a ferramenta de montar spec.
O caminho de navegação:
Acesse
api.sap.com. A home organiza o conteúdo em abas (Products, Categories, Domains, Industries...) — role até a área de exploração;Em Explore Categories, localize o card CDS Views ("Explore CDS view content from SAP");
Dentro da categoria, filtre por produto (SAP S/4HANA), busque pelo termo de negócio e abra a view para ver a estrutura completa;
Alternativa útil quando você não sabe nem o termo: navegar por Industries ou Domains e chegar ao conteúdo do seu setor.
Business Accelerator Hub: a porta de entrada — repare nas abas de navegação no topo
Explore Categories: o card CDS Views concentra mais de 18.800 views do S/4HANA
O recorte por indústria: outro ponto de partida quando o termo de busca não é óbvio
Na prática: o Hub funciona pra estudar antes do projeto começar, comparar releases e escrever specs em casa. Quando a dúvida for "essa view existe?", comece por aqui; quando for "essa tabela virou o quê?", comece pelo Cloudification Repository Viewer. Só não esqueça: o catálogo documenta a release mais recente da SAP — o que vale é a versão do seu ambiente, então confirme no View Browser ou no ADT antes de fechar qualquer spec.
Como encontrar CDS views pelo View Browser no Fiori?
Dentro do sistema, o app View Browser é o caminho sem Eclipse: o app Fiori F2170, disponível desde o S/4HANA 1610 (também on-premise), busca CDS views por nome, descrição, campo, componente de aplicação, anotação — e até pela tabela subjacente.
Ele brilha em três cenários do dia a dia funcional:
Conferir se a view existe no seu release — o catálogo público mostra o que existe "na SAP"; o View Browser mostra o que existe no seu sistema, com a versão que você tem;
Buscar pela tabela subjacente — digite BSEG e veja as views que leem dela: é a pergunta "conheço a tabela, qual é a view?" respondida sem sair do launchpad;
Explorar as views analíticas — filtrando por categoria e tipo (dimensão, cubo, query), você acha o material de relatório pronto pra usar.
Na prática: o View Browser vem no papel de especialista de analytics (
SAP_BR_ANALYTICS_SPECIALIST). Se ele não aparece no seu launchpad, o pedido pro time de autorizações é esse papel — ou o catálogo equivalente do app F2170 na Fiori Apps Library.
O que são as CDS analíticas (cubes e queries) → cds-analiticas
Como achar CDS views no ADT?
Se você tem o ADT (ABAP Development Tools no Eclipse) com usuário de exibição, ganha o caminho mais poderoso. A porta de entrada é o atalho Ctrl+Shift+A — e o segredo está nos filtros que quase ninguém usa.
Digite type: no campo de busca e o próprio diálogo lista os tipos disponíveis — o que interessa é DDLS (Data Definition, o objeto que contém a CDS view):
Ctrl+Shift+A com type: — DDLS é o tipo das definições de CDS
Os filtros se combinam. Quer ver as views Z do time? type:ddls z* owner:usuario lista só as data definitions customizadas daquele autor — ótimo pra auditar o que o projeto já criou antes de pedir view nova:
Filtros combinados: só as CDS Z de um owner específico
E tem um atalho ainda mais direto quando a intenção é ver dados: Alt+F8 (Run ABAP Development Object). Ele busca do mesmo jeito, mas ao confirmar já executa o objeto — e executar uma CDS view significa abrir o Data Preview dela:
Alt+F8: buscar e executar em um passo — a view abre direto no Data Preview
Como ver os dados e entender uma CDS view no ADT?
Achou a view? Três recursos respondem as perguntas seguintes — "que dados ela traz?", "que campos ela tem?" e "o que ela faz?" — sem abrir uma linha de código.
Data Preview (F8): o equivalente da SE16 pra CDS views. Mostra as primeiras linhas com os dados reais do sistema, e a barra superior tem filtro por padrão, Add Filter por coluna, contagem de registros e até um SQL Console pra quem quiser ir além:
Data Preview da I_Material: dados reais, filtros e contagem — o "SE16 das CDS"
F2 (Element Info): com o cursor no nome da view, F2 abre um painel com a descrição e todos os campos — nome semântico, elemento de dados, tipo e descrição traduzida (SAP Help — ABAP Element Info View). É a resposta mais rápida pra "essa view tem o campo que eu preciso?":
F2 na I_JournalEntry: todos os campos com descrição em português, sem abrir o código
Documentação embarcada: objetos liberados da SAP costumam trazer um Knowledge Transfer Document. No editor, o link Open Documentation aparece acima da definição — e abre um documento estruturado com as operações suportadas, restrições e até os objetos de autorização envolvidos:
O link discreto que quase ninguém clica: Open Documentation
Knowledge Transfer Document: operações, restrições e objetos de autorização (M_BANF_*) — ouro pra quem cuida de perfis
Detalhe que pouca gente usa: o Knowledge Transfer Document lista os objetos de autorização que a API verifica. Numa discussão de acesso ("por que o usuário não consegue criar requisição via app?"), essa página responde em segundos o que uma análise de trace levaria horas.
Como ir da tabela à view — e da view às tabelas — no ADT?
O ADT também responde as duas perguntas de mapeamento, e é aqui que ele supera as ferramentas de navegador.
Da tabela pra view: abra a tabela (Ctrl+Shift+A, type:tabl) e acione o Relation Explorer (SAP Help — Relation Explorer). No contexto Using Objects, ele lista tudo que usa a tabela — na BSEG, são 98 data definitions, da FIS_CDS_BSEG às views de worklist. Melhor ainda: a aba Properties → API State da própria tabela mostra o release state e o link direto pra sucessora:
BSEG no ADT: 98 views a leem, e o API State aponta a sucessora oficial I_OperationalAcctgDocItem
Um clique na sucessora e você confere o outro lado: a I_OperationalAcctgDocItem aparece como Released, com uso permitido em desenvolvimento cloud e apps de key user:
O destino da jornada: view sucessora com contrato Released
Da view pro entorno: o mesmo Relation Explorer tem contextos alternáveis no menu da própria aba. Using Objects mostra quem consome a view (controles de acesso, classes, interfaces de pacote); Used Objects mostra o que ela consome (no contexto Analytics, as dimensões e textos associados — útil pra entender um cubo):
Using Objects da I_JournalEntry: quem depende dela
Used Objects no contexto Analytics: as dimensões e textos que a view referencia
O estado de release de qualquer objeto, aliás, está sempre a um clique: aba Properties → API State, com o contrato (Use System-Internally), as permissões de uso e a data da última mudança:
Properties → API State: o contrato da view, direto no ADT
Da view até as tabelas físicas: quando a pergunta é "de onde esse dado vem, afinal?", o Dependency Analyzer desenha a resposta. Clique com o botão direito na view → Open With → Dependency Analyzer:
O caminho: botão direito → Open With → Dependency Analyzer
O resultado é o SQL Dependency Graph: a cadeia completa de views, da que você abriu até as tabelas transparentes na base — no exemplo, a I_BillingDocumentItemTextTP desce por views intermediárias até VBRK, TVFK e STXH. É o mapa que encerra a discussão "mas em qual tabela isso grava?":
SQL Dependency Graph: da view liberada até as tabelas físicas, num diagrama só
Qual ferramenta usar em cada situação?
Nenhuma das quatro substitui as outras — cada uma vence num cenário. O resumo de decisão:
Situação | Ferramenta | Por quê |
|---|---|---|
"Conheço a tabela clássica, qual é a view?" | Cloudification Repository Viewer | Sucessoras oficiais, sem login |
"Sei o assunto, não sei o nome de nada" | Viewer (busca | Curinga + filtro por tipo/indústria |
"Preciso dos campos pra montar a spec" | Business Accelerator Hub | Página de detalhe completa, sem sistema |
"O que existe no MEU sistema/release?" | View Browser (Fiori) ou ADT | Catálogo local, com favoritos |
"Quero ver os dados reais agora" | ADT Data Preview (Alt+F8) | Dados, filtros e contagem na hora |
"De quais tabelas esse dado vem?" | ADT Dependency Analyzer | Grafo completo até a base |
"Quais autorizações essa API checa?" | Documentação embarcada (KTD) | Objetos de autorização listados |
Regra: valide sempre o estado Released antes de fechar a spec — não importa por qual ferramenta você chegou na view. O nome certo com o contrato errado vira retrabalho no upgrade.
Perguntas frequentes
Preciso ser desenvolvedor para consultar CDS views?
Não. O Cloudification Repository Viewer e o Business Accelerator Hub são públicos e rodam no navegador, sem login. O View Browser é um app Fiori comum. Só o ADT pede instalação do Eclipse e um usuário com autorização de exibição — sem chave de desenvolvedor pra só consultar.
O que significa "Not To Be Released" numa tabela?
Que a SAP decidiu não estabilizar aquele objeto como API na estratégia de cloudification: ele continua existindo, mas o acesso recomendado passa a ser pela sucessora CDS indicada no campo Successors. Spec nova apontando pra um objeto nesse estado nasce com prazo de validade.
Como descubro os campos de uma view sem abrir código?
Três caminhos: a página da view no Business Accelerator Hub (sem sistema), o F2 no ADT (lista completa com descrições traduzidas) e o próprio Data Preview, que mostra as colunas com dados reais. Pra spec, o Hub costuma bastar; pra validação, o Data Preview ganha.
O Data Preview substitui a SE16?
Para leitura via CDS views, sim — com vantagens: filtros por coluna, contagem, e os textos e conversões que a view já resolve. A SE16 continua útil pra tabelas físicas, mas lembre que a leitura recomendada no S/4HANA é pela view liberada, não pela tabela.
Conclusão
Procurar CDS view deixou de ser tarefa de desenvolvedor. Com o Cloudification Repository Viewer você traduz o vocabulário antigo (MARA, BSEG, EKKN) pro novo; com o Business Accelerator Hub monta specs completas sem sistema; com o View Browser confere o que existe no seu release; e com o ADT vê dados, campos, autorizações e a linhagem até as tabelas físicas.
O próximo passo natural é entender o que fazer com a view encontrada: consumi-la num relatório analítico, expô-la como serviço OData (como fizemos no guia de OData V4) ou usá-la de base pra extensões.
Fontes (consultadas em 02/08/2026):
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